Uma vodka, por favor...

domingo, 12 de dezembro de 2010



Pra variar o post nada sóbrio de sábado à noite...

Quem sabe começar um conto?

Das últimas vezes até ficou interessante...

O problema é saber por onde começar... Depois de começar improvisar o resto é coisa fácil...

Quem sabe uma música!

Pois bem, você está escutando uma música. "Old Love", do Eric Clapton.

Você caminha pela rua com uma certa pressa. Está atrasado. No MP3 toca um Motorhead no último volume, enquanto você ouve "Going to Brazil". De repente ela começa.

Um riff simples...

E uma letra meio chorada...

"I can fell your body..."

E você estanca de repente na caminhada. Várias coisas começam a passar pela sua cabeça. Não é fácil lidar com fantasmas do passado, principalmente quando esses fantasmas não são tão etéreos assim.

Principalmente quando os fantasmas tentam por si só tornarem-se etéreos e desaparecer, mas você não deixa. Concientemente, numa espécie de tortura voluntária você escolhe continuar a viver algo que talvez já não exista. Como o velho torturador que continua a ver comunistas em cada esquina, você dá um ligeiro sorriso enquanto o solo começa e você percebe que solo de verdade é quem ouve essa música bem no início da tarde no meio de uma correria imensa esbarrando nas pessoas e ainda tendo tempo pra se emocionar com um refrão...

"Old love... Leave me alone..."

Talvez seja tudo o que você deseja, nesse momento em que o inconsciente e o consciente fundem-se num milagre perfeito que só pode ser provocado pelas maiores epifanias ou pelas mais profanas bebidas.

Mas você nunca foi dado de verdade à religião... Nem aos dogmas... Então o que sobra é o que sobra a qualquer cachorro que saiba seguir o rastro até o lado mais escuro da rua.

O que sobra é saber que mesmo com essa maravilhosa junção onde não se sabe o que é influência e o que é vontade.

O que sobra é saber que não importa o que aconteça, você sempre volta sozinho pra casa, sempre dorme e sempre acorda solitário, na certeza de que talvez seja assim até o derradeiro dia em que o ar não mais vai mais violar esses pulmões.

Mas não, talvez a própria solidão seja ilusória. Como viver sabendo que a qualquer momento uma certeza pode se revelar uma falácia das mais pérfidas?

Mas você persiste.

Você sabe que um dia as coisas vão ser mais claras. E você caminha pela rua sozinho.

Agora já não há mais ninguém. Mesmo os cachorros vadios já encontraram seu lugar e se foram.

Mas você continua caminhando. Olha para cima. As estrelas devem estar em algum lugar que as nuvens escondem, mas não é difícil imaginar.

Exatamente isso: Mesmo que haja nuvens no caminho não é difícil imaginar as estrelas.

Você percebe isso num clarão de luz divina, ou profana, que seja, e então mais uma vez ergue a cabeça  e para pra reparar no que está tocando. Outra do Eric Clapton...

Você não sabe o nome dessa, e não mais enxerga as letrinhas miudas pra saber de que se trata...

Um sorriso de canto de boca...

Uma decisão de canto de mente...

E você volta a música...

E volta pra casa cantarolando...

"I can feel your body
When I'm lying in bed
There's too much confusion
Going around through my head..."



Outro sorriso e você vai chegar em casa tranquilo.


Entre ser feliz ou estar certo você obviamente escolhe o caminho do meio: amar.


E persegue acreditando no amor até o fim.


Por que mesmo que não chegue a viver uma linda história de amor, ao menos vai morrer com este mesmo sorriso e com esta leveza turva no olhar...


Porque pouco ou quase nada nessa vida importa de verdade.






Postado ao som de "Old Love" - Eric Clapton.



1 comentários:

Daniela disse...

Entre ser feliz ou estar certo você obviamente escolhe o caminho do meio: amar.

Adorei esta parte. O amor corrói, machuca, instiga, mas te vicia. Ele é tão estranho, é como um sonho, suave, a felicidade é quase increditavel. Quando acorda, você começa a perdeber tudo ao redor, a realidade, seus atos e tudo mais. Você se machuca tão fácil. Mas não resistimos a ele, pois é a opção mais 'certa' de felicidade. Pois quando não amamos, ficamos solitarios.
Eu realmente adorei seu conto, muito mesmo. Ainda mais que li ao som de Bruce Dickinson - Gypsy Road.