Sonêto

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Se te procuro, fujo de avistar-te,
E se te quero, evito mais querer-te,
Desejo quase, quase aborrecerte
E se te fujo estás em toda parte.

Distante, corro logo a procurar-te,
E perco a voz e fico mudo ao ver-te;
Se me lembro de ti, tento esquecer-te
E se te esqueço, cuido mais amar-te.

O pensamento assim partido ao meio
E o coração assim também partido,
Chamo-te e fujo, quero-te e receio!

Morto por ti, eu vivo dividido,
Entre o teu e o meu ser sinto-me alheio
E sem saber de mim vivo perdido.

José Bonifácio de Andrada e Silva.


Óh, dúvidas e mais dúvidas! Neste mundo tão frio e descolorido, ainda o que resta de vivo e caloroso são nossos amores e paixões, mas mesmo estes às vezes parecem se perder num sutil e despercebido devaneio.