Quando a mediocridade é o que resta

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Interessante essa história de ser professor.

Sempre vi meus professores como pessoas cultas e bem estruturadas intelectualmente. Verdadeiros exemplos a serem seguidos. Pessoas que eram intelectuais sem serem arrogantes e sérias sem perder o senso de humor.

Decidi ser professor também.

Me preparei da melhor forma possível, batalhei uma faculdade federal num curso bastante complicado, mantive minha cultura geral o mais ampla possível e busquei sempre estar atualizado com o mundo. Em suma: busquei ser aquilo que imagino de um professor: um intelectual.

Agora estou dentro da sala de professores junto aos meus pares e me deparo com um paradigma totalmente diferente, em geral o papo é o mais alienado possível. Na melhor das hipóteses surge uma discussão política que não tarda em cair no "não tem mais jeito". E esse é o ápice. Agora pouco ouvi um discurso homofóbico de um colega.

Não é triste quando a mediocridade é o que resta, é triste quando as pessoas ainda não conseguiram atingir a mediocridade.

Por isso mesmo acho que não dá pra criticar nem um pouco os nossos alunos: com os professores que tem não era de se esperar que fossem melhores.

Certo estava Orwell, ou mesmo Goldstein em 1984, a massa de manobra que deve ser controlada é o Partido Intermediário. Enquanto os intelectuais, técnicos e burocratas forem mantidos numa coleira curta o poder não irá precisar se preocupar em controlar o proletariado.



Postado ao som do sinal no fim do intervalo.

Contraria sunt Complementa (Parte 1)

domingo, 28 de agosto de 2011




Sempre foi uma pergunta recorrente, principalmente entre ateus relutantes e agnósticos, o questionamento de se Deus seria real ou estaria apenas dentro da nossa cabeça.

Depois de tanto remoer pensamentos, nem sempre agradáveis, podemos chegar a uma resposta que parecia pairar no ar o tempo inteiro: Sim, ele está apenas dentro de nossa cabeça. Mas logo em seguida devemos fazer uma segunda pergunta: isto o torna menos real? Afinal de contas, se olharmos para tudo em nossa visão de mundo, desde os sentimentos mais abstratos até aquela topada dolorosa com uma pedra no caminho, em última instância todas as nossas percepções não estão dentro do domínio da nossa mente?

O questionamento de Berkeley sobre o fato de todas as sensações e sentimentos humanos serem sempre objetos do domínio da mente não necessariamente precisa ser encarado como uma inocente negação da existência da realidade objetiva para além dos domínios da imaginação humana. Afinal de contas, se àquelas coisas que se passam apenas em nosso pensar não pudermos, de alguma forma, atribuir existência, não poderemos sequer atribur o existir ao nosso próprio corpo e, como bem disse Nietzsche, o "cogito ergo sum" do racionalismo clássico deverá ser reduzido a não mais do que um "cogito ergo cogito".

Deus está apenas na imaginação? Sim. Isso faz com que ele não seja algo real? De maneira alguma!

Um dos exercícios de pensamento mais interessantes e, ao mesmo tempo, difíceis de ser executado é o de perceber que conceitos que, em princípio, são contrários não precisam ser necessariamente excludentes, sendo estes na maioria das vezes complementares.

Numa primeira abordagem desta forma de princípio da complementaridade social poderíamos observá-lo como sendo a força motriz que faz com que todas as grandes dicotomias do pensamento humano cedo ou tarde recaiam em uma síntese. Assim foi com o idealismo e o realismo em Kant, assim foi com o racionalismo e o empirismo em Popper. Aprendemos com a filosofia que o mundo não se resume a teses e antíteses, há um papel importante e especial para a síntese. Este papel vai além da falácia aparente da simples conciliação entre caráteres díspares, ele nos mostra que esta é capaz de muito agregar ao nosso conhecimento e contribuir de maneira ativa com  formação de nossa visão de mundo acerca dos mais diversos aspectos.

Aquele que diz que Kant é apenas uma conciliação entre o idealismo e o realismo das duas uma: Ou está sendo perigosamente ingênuo ou nunca leu a obra deste pensador.

Nestes próximos posts tentarei mostrar que é não apenas possível mas também em muito agregador de valor e significado estabelecer uma síntese entre a ideia ateísta da não existência de um Deus externo ao homem e a posição dogmática do motor imóvel, chegando à possibilidade de um Deus interior ser tão real quanto um criador do universo, uma vez que este a cada momento recria o ser humano nos mais diferentes momentos de sua vida.


Na parte 2 explicarei a ilustração e falarei sobre o Princípio da Complementaridade da mecânica quântica e no quanto essas ideias são indispensáveis para nossa visão contemporânea do mundo físico.


Postado ao som de "Vivaldi's Winter" - Versão Darkmoor.

Interlúdio blogstático

Bom, gente, mais uma vez estou de volta e como sempre pedindo desculpas pela longa ausência.

As coisas tem acontecido num ritmo desconcertante na minha vida e isso tem me deixado um pouco sem tempo. Só pra resumir, desde os últimos posts até agora aconteceram uma greve bem longa, aulas de reposição, uma dissertação de mestrado pra concluir e um noivado.

Estou num ritmo alucinante entre me perder e me encontrar novamente a cada momento. Esse é um daqueles momentos mágicos onde, ao mesmo tempo, tudo muda e tudo permanece.

Nesses últimos dias tenho especialmente me dedicado a refletir sobre essas aparentes contradições, sobre o confuso caminho entre o vir e o devir, mas especialmente sobre as idéias sintetizadoras que sempre surgem deste limbo da disparidade entre ideias.

Ontem dormi (ou não dormi) com uma contrariedade destas na minha cabeça.

Hoje é estranho, mas acordei e, de repente, parece que a resposta para tudo sempre esteve debaixo do meu nariz o tempo inteiro!

Não vou me concentrar aqui nas perguntas que me fizeram recair no questionamento, talvez faça isso no futuro, mas vou me concentrar na resposta (nada definitiva) que encontrei.

Tentei escrever de forma sintética para postar aqui, mas o texto ficou tão longo que o publicarei na forma de pequenos capítulos.

Talvez eu acabe sendo teórico demais, mas espero que vocês gostem do meu "Contraria sunt complementa", mesmo que ele não seja, em última análise, tão original assim.


A parte 1 será postada agora!

A propósito, é bom estar de volta!


Postado ao som de "Tocando em frente" - Versão da Paula Fernandes.