Uma última batalha

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Pouco há que se compare ao calor de uma batalha. Pouco há o que se compare a sentir o sangue correndo pelas veias e o frenesi guerreiro tomando conta do seu corpo.

Há aqueles que olham para uma batalha e vêem apenas carmificina e sangue jorrado numa violência descabida, mas definitivamente ele não era um deles. Ele sabia muito bem o peso de uma injúria mal resolvida e de um mal não remediado.

Sabia ainda que poucos são pacifistas por opção, muitos o são por covardia.

E foi com esses pensamentos em mente que adentrou seu campo de batalha. Não vestia mais do que uma velha cota de malhas e não carregava mais do que sua espada.

Não... Escudos já não faziam sentido quando se precisava de força total, e elmos apenas atrapalham a visão quando a concentração e os reflexos podem salvar sua vida mehor do que um pedaço de metal...

E assim ele encarou a morte, da mesma forma que encarava a vida: sem medo e sem arrependimentos. Muitas vezes já vertera sangue alheio, mas um sem número de ocasões também derramara seu próprio. Era o tributo caro cobrado pelos deuses da guerra e as marcas de sua devoção estavam estampadas em cada centímetro de seu corpo em profundas e gloriosas cicatrizes. Não são muitos os que sobrevivem a tantas batalhas, e ele de verdade nunca havia se sentido muito próximo da morte até aquele dia.

A própria manhã que antecedeu aquele longo derramamento de sangue já havia sido de maus agouros... E agora mesmo antes de cruzar espadas com seu primeiro oponente sabia que seria sua última batalha. Mas isso não o intimidava, o tornava mais forte.

Nascera par isso, para morrer em combate.

Já não enxergava seus compatriotas no campo da disputa, o sangue lhe cobrira o rosto transformando tudo em vultos. Sua espada lhe guiava, assim como havia aprendido e aprimorado há tanto tempo e ele sentia a pilha de corpos crescer ao seu redor. O cheiro do sangue o inebriava e fazia esquecer de tudo.

Já não podia mais andar, um grande ferimento em sua perna direita fazia com que até mesmo ficar de pé fosse custoso. Mas ele não podia simplesmente cair e morrer... não sem antes erguer uma muralha de inimigos ao seu redor, um monumento fúnebre à sua coragem e bravura. Um último sacrifício em honra de todos os companheiros caídos.

Já não sentia mais as dores, não sentia mais sua carne sendo perfurada e cortada, sentia apenas o fio de sua espada, e cada gota de sangue inimigo que espirrava em sua armadura. Acima de tudo ele era um guerreiro.

Já não se recordava mais das razões da batalha, mas isso não mais lhe importava. Fosse justo ou injusto ele estava apenas cumprindo seu papel e fazendo o que nascera para fazer. Ele gostava dessa sensação. Sentia-se completo como nunca sentira e pôde perceber o quanto abençoado estava sendo em seus últimos momentos de glória.

Agora já não via mais nada. Cessaram-se os vultos. Agora já não sentia mais nada. Cessara o dançar da lâmina. Uma última sensação, um último som. E ele ouviu um grito. Um grito terrivel e ameaçador, como se a própria Terra chamasse por sua alma e cobrasse o preço por tantas vidas ceifadas. Ele sabia que era uma dívida da qual não se foge. Então já não ouvia mais nada. Cessaram-se os gritos, cessaram-se as vozes. Agora já não sentia mais nada. O chão sobre seus pés parecia desaparecer e mesmo assim ele insistia em não cair...

E assim se foi... Morreu da mesma forma que viveu: Enfurecido. Morreu com o mesmo sentimento que viveu: Sem se arrepender pelo sangue derramado e sem temer pela abreviação de sua vida... Pois a vida era apenas isso, uma chance curta para fazer o que deve ser feito. E ele havia feito.

Mais um dia, mais um começo

Mais um dia, mais um começo.

Sentada na beira da praia contemplou o nascer do Sol.

Mais um dia, mais um começo.

O vento batia em seu rosto, o ar secava suas lágrimas.

Mais um dia, mais um começo.

Ver o mar sempre lhe lembrava dele, mas não mais sofria.

Mais um dia, mais um começo.

Restava apenas esperar que o frio passasse e a dor se curasse.

Mais um dia, mais um começo.

Levantou-se e andou em direção à praia.

Mais um dia, mais um começo.

Não sentia o calor, nem o vento, nem mesmo a luz do sol em seus cabelos.

Mais um dia, mais um começo.

Repitira essa frase diversas vezes para si mesma depois que ele se fora...

Mais um dia, mais um começo.

Mas nada mais importava, a água morna massageava seus tornozelos.

Mais um dia, mais um começo.

A dor da perda já não sentia, enquanto molhados ficavam seus joelhos.

Mais um dia, mais um começo.

A água cobria sua cintura, e não pôde deixar de notar o quão belo era o céu sobre sua cabeça.

Mais um dia, mais um começo.

Queria olhar de novo para a margem, mas não tinha coragem suficiente.

Mais um dia, mais um começo.

Queria ver mais uma vez aquele olhar perdido... mas perdido estava o olhar...

Mais um dia, mais um começo.

Perdido o olhar, perdido o amor, perdidos os sonhos.

Mais um dia, mais um começo.

A água tocava de leve seus cabelos, e acariciava suas costas.

Mais um dia, mais um começo.

Ao sentir a plenitude daquele momento um arrepio percorreu sua espinha.

Mais um dia, mais um começo.

Não sentiu medo nem angústia, apenas paz e serenidade.

Mais um dia, mais um começo.

Não haveria porque se preocupar, não havia porque retornar...

Mais um dia mais um começo.

E a água cobriu seu rosto.

Mais um dia, mais um começo.

Num último suspiro elevou seu espírito. Sem dor, sem sofrimento....

Mais um dia, mais um começo.

Sem palpitações, sem desespero, sem cartas de despedida.

Mais um dia, mais um começo.

E na cidade a vida começava a fluir por entre as veias da quimera de concreto e asfalto. Nada naquela manhã denunciava que algo de anormal poderia ter ocorrido. Os cachorros latiam, as crianças choravam, um bêbado caia pelas esquinas. Nada demais. Apenas mais um...

Mais um dia, mais um começo.


Postado ao som de "Hurricane" - Bob Dylan.